( rascunhos originais, primeira parte)
Naquela terra, nao havia magos, nao havia dragoes, nao havia qualquer ameaca que se pudesse sentir no ar. Era pura calmaria, e seria o lugar perfeito para o romance perfeito, romance de todos os livros de cavalaria. mas o que faltava era algo simples, quase bana: um cavaleiro.
Porque cavaleiros nao buscam terras assim, estao sempre atras de desafios e de historias para contar aos pares, ou para virar cancoes de amor na voz de bardos tristes. Cavaleiros que se acomodam perdem o vico, perdem a forma, perdem o charme. E , sem historias, nao se encontram as princiesas; e sem princesas, nao ha como o cavaleiro deixar de ser apenas mais um na cavalaria alinhada.
Mas esta nao e a historia de feitos heroicos de um cavaleiro, porque, destas, ha muitas - e a historia de como aprincesa, sem dragoes , bandidos ou invasores normandos, atraiu para sua terra os mais nobres cavaleiros de todo um continente
* * *
Ela olhava longe, esperando ver na estrada aquela nuvem de poeira cheia de esperanca que indicaria o primeiro cavaleiro a aparecer. Mas caia a noite, e ninguem apareceu. Ah, pensou ela, antes eu nao sabia como eram solitarias as noites, porquepelo menos eu nada esperava. agora, como demora chegar outro dia...
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Nao era seu preferido, muito menos quem ela escolheria. Mas ha momentos em que as decisoes sao mais simles queparecem, quando nos falta opcao: nem a princesa podia escolhr, nem o cavaleiro, ja cansado das batalhas perdidas em outras terras, tinha disposicao para discutir. Os olhos vermelhos da noite em claro indicavam ium unico caminho , suas linhas vermelhas riscando todas as alterativas consideradas. Entao, era assim que tudo ia terminar - estava decidido.
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Por muito tempo, se discutiu se foi assim que a historia terminou, se nao era tudo uma forma de moldar a visao que o povo tinha de sua realeza. Talvez mais nobre que o usual, um pouco mais humano que o esperado, mas o que fazia a historia possivel era aquilo que a fazia diferente de tantas historias de cavaleiros e princesas : a terra embaixo das unhas dos herois, o aparente dsinteresse que nos temos pela vida aheia ate que ela nos afete -e, acima de tudo, saber que, por tras de fossos, ameias e pontes levdicas, as noites , asvezes, sap tao escuras para eles quanto para nos.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
terça-feira, 17 de março de 2009
a deriva
Em todas as historias de navegantes, o ceu e azul, o mar e calmo, e as tormentas aparecem sem qualquer sinal - a nao ser os necessarios para criar expectativa no leitor. No meu mar, nao ha calmaria. Tubaroes brancos nada permanentemente ao redor do barco em que minha consciencia se equilibra, enquanto as nuvens avancam com alta velocidade cobrindo cada centimetro antes que eu possa respirar um ultimo raio de sol. No meio do vento, enquanto subo em ondas enormes e mergulho em vales dagua negra, os arrepior me lembram porque deixei um porto seguro para navegar para longe da calmaria do centro.
Em cada onda, eu vejo outros barcos em que fantasmas como os meus remando olhando o vazio , desesperados rumo a um destino que nao querem encontrar. Aparecem, somem, e na ausencia de rostos eu vejo caras amigas, que nao julgam outros degredados, solidarios no esperar que a chuve passe.
Nas noites de calmaria, eu sinto falta do caos que estabelece nessas beiradas do mundo.
Em cada onda, eu vejo outros barcos em que fantasmas como os meus remando olhando o vazio , desesperados rumo a um destino que nao querem encontrar. Aparecem, somem, e na ausencia de rostos eu vejo caras amigas, que nao julgam outros degredados, solidarios no esperar que a chuve passe.
Nas noites de calmaria, eu sinto falta do caos que estabelece nessas beiradas do mundo.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Confete
Era, como numa historia de revista, no meio do povo que ela bailava, quando eu a vi. Era um mundo de serpentinas, confetes coloridos e criancas correndo, e ninguem, alem de mim, reparou em mais uma odalisca. Fantasia gasta, seguramente de outros carnavais, marcas de muitos blcoso e bailes nas suas bordas desfiadas. mas a cada marchinha, a cada samba antigo, ela dancava mais feliz, e sorria mais, formando um cordao, uma roda, um trem, como se fosse rainha do carnaval.
E eu, que olhava tudo da janela, por instante, me arrependi de nao ter uma fantasia sequer para participar da festa, uma tristeza grande de nunca ter entendido assim o carnaval. Um carnaval de rua que voltou a bater na minha porta, como nao fazia ha anos; campainha que eu vou deixar tocar como deixo os pedintes a espera nos finais de semana , seguro de que, com silencio aqui dentro, ele vai sambar em outra freguesia.
E eu, que olhava tudo da janela, por instante, me arrependi de nao ter uma fantasia sequer para participar da festa, uma tristeza grande de nunca ter entendido assim o carnaval. Um carnaval de rua que voltou a bater na minha porta, como nao fazia ha anos; campainha que eu vou deixar tocar como deixo os pedintes a espera nos finais de semana , seguro de que, com silencio aqui dentro, ele vai sambar em outra freguesia.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Agua Corrente
Ha momentos em que escrever e mais dificil que parece. O vida ao redor do escritor flui com velocidade, arrasta horas e minutos na correnteza e escapama entre os dedos quando tentamos recuperar uma delas. E nao ha escafandro, rede ou barco que , lancados em sua persegucao, tragam de volta qualquer um deles, pequenas moby dicks que se movem rapidamente ao redor do relogio. Entre paises e avioes, aeroportos e lugares, o arpao do comandante cansado deixa de tentar parar o tempo e reservar algum para si mesmo, deixa de separar os minutos necessarios para escrever o diario de bordo, E ,quando volta ao ponto de partida, sem historias para contar, sem marcas para mostrar, nada resta que nao a velha sina de voltar ao mar, e tentar pescar as horas perdidas na rede que, sozinho, ele joga ao mar.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Acesso
Ali eno stadio, entre tanta gente feliz, entre tantas caras de alegria , um momento de razao faz lembrar que amanha o dia nao sera mais alvinegro, mas cinza, da cor dos predios pelos quais vai passar se onibus as cinco da manha, a coaminho de mais um dia de trabalho.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Agua
Diante do imenso nada, ele se equilibrou com cuidado na beira do penhasco, e olhando devagar para baixo, viu que ali no fundo corria um rio, nem muito largo, nem muito estreito. Que corria ali sem se preocupar se alguem o olhava la de cima, se por ele passavam pedras ou troncos, sem se preocupra com nada so corria, sem sequer saber que um dia chegaria ao mar.
E num instante ele percebeu que, talvez, nao precisasse de aprovacao de ninguem, dos olhares de ninguem - que bastava seguir e um dia ele tambem, como todos, desaguaria no mar.
E num instante ele percebeu que, talvez, nao precisasse de aprovacao de ninguem, dos olhares de ninguem - que bastava seguir e um dia ele tambem, como todos, desaguaria no mar.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Voto
Apertar os botoes da urna nem de longe me transmite a mesma sensacao das cedulas: a de um papel em branco em que eu escrevia o meu destino.
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